sexta-feira, 1 de abril de 2016
Exercício 1
Nosso objeto
aqui é o livro.
O livro e suas
infinitas finalidades.
Há quem use
para obter informações, conhecimento, quem use para apoio psicológico, moral,
ético. O livro físico, não se sustenta por si só. Sem palavras, imagens e
qualquer conteúdo posto dentro dele. E é essa fascinante ideia de ter em mãos
um pequeno objeto onde existem infinitas possibilidades de colocar tudo o que é
possível neste mundo que é interessante.
Colocando em
discussão dois contos, um de Jorge Luis Borges - O livro de Areia e o de JulioCortazar - Fim do mundo fim, onde podemos ver o livro como objeto e objetivo
central, discutiremos a funcionalidade do livro com o contexto de Rizoma
apresentado por Deleuze e Guattari. Nos dois contos o livro é o infinito, é a
possibilidade da existência humana de não parar em sua completa ignorância. Ora,
não é de hoje que fazemos a ligação entre livro = conhecimento. Para Borges o Livro de Areia é o objeto que detém todo
o conhecimento do mundo, que está sempre em processo de renovação, restauração,
reestruturação. Para Cortázar o “escriba” que possui a capacidade de escrever o
livro como também o livro em si torna-se algo sem total controle de produção e
acesso. Um único livro é o ponto central para conseguimos produzir outros
livros. Partimos de um ponto, mas nunca nos prendemos somente a um único livro.
Uma história/livro possui a complexidade de dar possibilidades para diversas outras
histórias. Com uma frase, uma palavra retirada de um único livro, pode-se criar inúmeros livros, textos, obras. As múltiplas possibilidades de se conseguir fazer
vários livros a partir de outros e assim por diante da a esse objeto um alcance
enorme em diversas áreas.
Nenhum deles precisa estar ligado, fazer menção, referencia. As idéias, a narrativa surgem a partir de vários pontos que não necessariamente estão conectados. A conexão surge de outra forma. Do livro surgem filmes, peças de teatro, obras de arte, música. Viajar sem sair do lugar, criar, imaginar, sentir, ver. O poder de criação e grandiosidade que temos nas mãos a partir do livro é assustadoramente infinito.
Nenhum deles precisa estar ligado, fazer menção, referencia. As idéias, a narrativa surgem a partir de vários pontos que não necessariamente estão conectados. A conexão surge de outra forma. Do livro surgem filmes, peças de teatro, obras de arte, música. Viajar sem sair do lugar, criar, imaginar, sentir, ver. O poder de criação e grandiosidade que temos nas mãos a partir do livro é assustadoramente infinito.
Fazendo uma comparação dos tempos atuais, os dois
contos e o Rizoma podemos dizer que a internet seria o Livro de
Areia, e também o processo dos escribas citado por Cortázar em seu conto. Na
frase “Como
os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão
mudar de profissão e adotar também a de escriba...” vejo o retrato
dos tempos atuais em nossos meios de comunicação. A internet seria o livro. A
produção exacerbada nas redes sociais torna os usuários como o escriba torna a
internet o livro de areia.
Fim do mundo fim, Julio Cortázar
Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas. Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros como tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros. Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas. Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O Presidente da República telefona para os presidentes das repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo. Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios etc. Isto permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros. Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta pasta consolidante e, finalmente, como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície.
Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e presidentes de diversas repúblicas são substituídos por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições etc. A água do mar, tão violentamente obrigada a espalhar-se, evapora-se mais do que antes, ou procura repouso misturando-se aos impressos para formar a pasta aglutinante, a tal ponto que um dia os capitães de longo curso percebem que seus navios avançam lentamente, de trinta nós descem para vinte, para quinze, e os motores arquejam e as hélices se deformam. Afinal, todos os navios param em diferentes pontos dos mares, encalhados na pasta, e os escribas do mundo inteiro escrevem milhares de impressos explicando o fenômeno, cheios de uma grande alegria. Os presidentes e os capitães resolvem transformar os navios em ilhas e cassinos, o público vai a pé, por cima dos mares de papelão para as ilhas e os cassinos onde orquestras de música típica argentina e de música local amenizam o ambiente refrigerado e se dança até altas horas da madrugada. Novos impressos se amontoam à beira do mar, mas é impossível metê-los na pasta e assim crescem muralhas de impressos e nascem montanhas à beira dos antigos mares. Os escribas percebem que as fábricas de papel e de tinta vão falir e escrevem com uma letra cada vez menor, aproveitando até os cantos mais imperceptíveis de cada papel. Quando a tinta acaba, escrevem a lápis etc; ao acabar o papel, escrevem em tábuas e ladrilhos etc. Começa a difundir-se o hábito de intercalar um texto em outro para aproveitar as entrelinhas, ou se apagam com lâminas de barbear as letras impressas, para utilizar novamente o papel. Os escribas trabalham devagar, mas são em tal quantidade que os impressos já estabelecem uma nítida separação entre as terras e os leitos dos antigos mares. Na terra vive precariamente a raça dos escribas, condenada a extinguir-se, e no mar estão as ilhas e os cassinos, isto é, os transatlânticos onde se refugiaram os presidentes das repúblicas, e onde se celebram grandes festas e se trocam mensagens de ilha a ilha, de presidente a presidente, e de capitão a capitão.
O livro de areia , Jorge Luis Borges
A linha consta de um número infinito de pontos: o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos; o hipervolume, de um número infinito de volumes ... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar minha narrativa. Afirmar que é verídica é agora uma convenção de toda narrativa fantástica; a minha, no entanto, é verídica.
Moro sozinho, num quarto andar da rua Belgrano. Fará uns meses, ao entardecer, ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal delineados. Talvez minha miopia os tenha visto assim. Todo o seu aspecto era de pobreza decente. Estava de cinza, trazia uma valise cinza na mão. Senti de imediato que era estrangeiro. De início, julguei-o velho; logo me dei conta de que seu escasso cabelo loiro, quase branco, à maneira escandinava, enganara-me. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
Apontei uma cadeira para ele. O homem tardou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
__ Vendo bíblias __ disse.
Não sem pedantismo, respondi:
__ Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são exatamente bíblias o que me falta.
Depois de um silêncio, respondeu:
__ Não vendo só bíblias. Posso lhe mostrar um livro sagrado que talvez lhe interesse. Comprei-o nos confins de Bikanir.
Abriu a valise e deixou-o em cima da mesa. Era um volume in-oitavo, encadernado em tela. Sem dúvida passara por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado surpreendeu-me. Na lombada dizia
Holy Writ e, embaixo, Bombay.
__ Será do século XIX __ observei.
__ Não sei. Nunca soube __ foi a resposta.
Abri-o ao acaso. Os caracteres eram estranhos para mim. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas à maneira de uma Bíblia . O texto era cerrado e disposto em versículos. No canto superior das páginas havia algarismos arábicos. Chamou minha atenção que a página par trouxesse o número (digamos) 40 514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso era numerado com oito algarismos. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela mão inábil de um menino.
Foi então que o desconhecido me disse:
__ Olhe-a bem. Nunca mais a verá.
Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Procurei em vão a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:
__ Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua hindustânica, não é verdade?
__ Não __ replicou.
Em seguida baixou a voz como para me confiar um segredo:
__ Adquiri-o num povoado da planície, em troca de umas rupías e da Bíblia. Seu dono não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra, sem contaminação. Disse-me que seu livro se chamava O livro de areia, porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha.
Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o polegar quase grudado ao índice. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
__ Agora procure a final.
Também fracassei; mal consegui balbuciar com uma voz que não era a minha:
__ Isto não pode ser.
Sempre em voz baixa, o vendedor de bíblias disse:
__ Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira: nenhuma, a última. Não sei por que são numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta:
Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
Suas considerações irritaram-me. Perguntei:
__ O senhor é, sem dúvida, religioso?
__ Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca do seu livro diabólico.
Assegurei-lhe que não tinha por que se recriminar e lhe perguntei se estava de passagem por estas terras. Respondeu-me que dali a alguns dias pensava regressar à sua pátria. Foi então que soube que ele era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que eu gostava pessoalmente da Escócia pelo amor a Stevenson e a Hume.
__ E a Robbie Burns __ corrigiu.
Enquanto falávamos, eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:
__ O senhor pensa oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?
__ Não. Ofereço-o ao senhor __ replicou, e fixou uma soma elevada.
Respondi-lhe, com toda a sinceridade, que aquela era uma soma inacessível para mim e fiquei pensando. Depois de uns poucos minutos, tinha urdido meu plano.
__ Proponho-lhe uma troca __ disse. __ O senhor obteve esse volume por umas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria, que acabo de receber, e a Bíblia de Wiclif em letra gótica. Herdei-a de meus pais.
__ A black letter Wiclif! __ murmurou.
Fui a meu quarto e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou o frontispício com fervor de bibliófilo.
__ Trato feito __ disse.
Assombrou-me que não regateasse. Só mais tarde eu compreenderia que entrara em minha casa com a intenção de vender o livro. Não contou as notas, e guardou-as.
Falamos da Índia, das Orcadas e dos jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem foi embora. Não voltei a vê-lo nem sei o nome dele.
Pensei guardar O livro de areia no lugar que tinha deixado o Wiclif, mas optei afinal por escondê-lo atrás de uns volumes avulsos d'As mil e uma noites.
Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã acendi a luz. Fui buscar o livro impossível e virei as folhas. Numa delas vi gravada uma máscara. O canto tinha um algarismo, já não sei qual, elevado à nona potência.
Não mostrei a ninguém meu tesouro. À felicidade de possuí-lo veio somar-se o temor de que o roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me uns amigos: deixei de vê-los. Prisioneiro do livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada desgastada e as capas, e afastei a possibilidade de qualquer artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as num livreto alfabético, que não demorei a preencher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
O verão declinava, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me adiantou considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que ele era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.
Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta.
Lembrei-me de ter lido que o melhor lugar para esconder uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder O livro de areia numa das úmidas prateleiras. Procurei não me fixar a que altura nem a que distância da porta.
Sinto um pouco de alívio , mas não quero nem passar pela rua México.
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